janeiro 24, 2007


9º Capítulo



      Pensou se não seria melhor desistir de ver o filme e sair dali para um qualquer outro lugar, já que mal prestava atenção ao que se passava no desenrolar da fita. Mas, deixou-se ficar, a atenção desperta para uma cena que lhe provocou mais um tumulto de recordações. Apercebia-se que o filme contava a história de uma família que passara pela opressão do Antigo Regime, por sucessos, fracassos, casamentos desfeitos, amores perdidos. Por isso é que, em cada pedaço de filme se reencontrava a si mesmo. Como este agora, de um casal que passeava de mãos dadas, pelo passeio junto a um rio.
      No tempo de namoro com Lena, tinham por hábito passar tardes a percorrer a margem do Tejo, desde o Cais do Sodré até Belém. Eram horas em que perdiam a noção do tempo e se entregavam ao puro prazer da companhia um do outro. O que partilhavam era muito mais que apenas amizade, paixão e sexo. Era uma comunhão que nunca havia sentido com mais ninguém. Nenhuma mulher era como ela. Em áreas profissionais distintas, falavam sobre todo e qualquer assunto, pois ela denotava um saber que raramente encontrara em mulheres da sua idade.
      Tinha trinta anos quando a conhecera e ela vinte e quatro. Uma jovem recém saída da Universidade, com imensos sonhos e ilusões sobre o mundo do jornalismo. Conseguira um estágio num dos jornais diários mais conhecidos e empenhara-se com fervor na carreira, mas investindo também na relação de ambos que surgira de imprevisto.
      Ele com uma carreira promissora na área da justiça, contava já alguns anos, com um casamento fracassado e inúmeras relações que o haviam ensinado a ver o mundo de forma menos cor-de-rosa, sentia que renascera com este amor.
      Haviam-se conhecido no Tribunal, num dos casos mediáticos em que ele intervia, e ela assistira para fazer a reportagem para o jornal.
      Durante o julgamento, os seus olhares haviam cruzado por várias vezes, desviando-se logo de seguida. Aconteceu tão amiúde que percebeu não ser um mero acaso. No final, procurara por ela nos corredores mas não a encontrara. No dia seguinte ela lá estava: na mesma sala, à mesma hora, para a continuação daquele julgamento. A troca de olhares intensificara-se, levando-o a um esforço maior para se manter atento ao que se desenrolava na sala.
      Dessa vez fora mais rápido e, quando a sessão terminou, encontrou-a no corredor junto à máquina do café. Também ela agira premeditadamente, contara-lhe depois, e ficara por perto na esperança de o ver passar.
      E esse foi o início de muitos cafés, que se haviam transformado em jantares e noites de paixão que terminavam com a ida de cada um para o seu trabalho – ele para o Tribunal ela para o jornal.


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Publicado por - Sutra - em 01:23 PM Comentar (0)

 

 

O Conto

'Sessão de Cinema'
por Sutra

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